Dona Conceição protesta contra a situação no
Morro do Céu
(Foto: Emily Luizetto)
A
casa é modesta, mas ampla: três quartos e um salão, repleto de imagens
de santos. Foi construída aos poucos, num terreno de 300 metros
quadrados, comprado em 1972, bem antes da instalação do aterro do Morro
do Céu. Ali vive a aposentada Maria da Conceição, 68 anos, com o filho
e seis netos. Ali é também a sede do Centro Espírita Aldeia das Sete
Folhas, onde dona Conceição realiza cerimônias religiosas e coordena
atividades sociais comunitárias, como festas para arrecadação de
alimentos e outros donativos.
Desde o temporal, a casa está
sob risco, rodeada por pelo menos cinco árvores que ameaçam desabar.
Porém, quando dona Conceição procurou informações para tentar resolver
o problema, descobriu que, se aceitasse o aluguel social, o imóvel
seria demolido. “Eles me disseram que, se eu aceitar o cheque-moradia,
eles vêm aqui, tiram minhas coisas e derrubam a minha casa. A
Prefeitura nem olha se a minha casa está boa ou não”.
Por
isso, resolveu não pedir o benefício. “Não quero que eles me tirem
daqui, acho que eles deveriam reformar a encosta e a minha casa. Onde
eu vou conseguir outra casa própria? Se eu aceitar a Defesa Civil vem
aqui e destrói a minha casa. O aluguel social é só por um ano. E
depois? O que eu vou fazer?”.
Na montagem, dona Conceição mostra o documento
que recebeu da Defesa Civil e o comprovante de compra do terreno, onde construiu sua casa
Ao mesmo tempo, a aposentada
vive aos sobressaltos. “Tenho medo de ficar aqui. Bem perto da minha
casa tem uma palmeira muito grande que está prestes a cair. A Defesa
Civil ainda não me deu nenhuma resposta. Eu já chamei os Bombeiros
várias vezes para cortar as árvores, mas eles dizem que só podem vir
depois que as árvores caem”.
A Defesa Civil de Niterói
argumentou que, devido a grande número de chamados, a demora no
atendimento é comum, mas todas as localidades serão atendidas. Porém,
no caso específico do Morro do Céu, ainda não há previsão de
atendimento. O Corpo de Bombeiros de Niterói não se pronunciou sobre o
caso.
Galeria:
No Morro do Céu, o poste desabado bloqueia a passagem. Muitas casas estão sob risco. Na sequência, dona Conceição caminha pelo acesso à sua casa, aponta aspectos da destruição e mostra a sua cozinha.
Com
a interdição provisória do aterro do Morro do Céu, parte da população
local perdeu seu sustento. Dulcilene Alves, de 46 anos, sustentava seus
quatro filhos com seu trabalho ali. A catadora teve sua casa atingida
pelas chuvas e não pôde retirar seus pertences, pois o acesso está
tomado por árvores caídas e pelos escombros das casas destruídas.
“Estou desesperada, perdi tudo e não consigo buscar o que sobrou. Estou
com medo de entrar na minha casa, parece que as paredes estão moles”,
descreve Dulcilene.
A moradora reclama ainda que os políticos
só aparecem no Morro do Céu em período eleitoral e fazem inúmeras
promessas, mas é só. Segundo ela, um candidato chegou a prometer a
pavimentação da Rua Antônio Carlos Brandão, nem que para isso fosse
precisar “tirar do seu próprio bolso”, mas a obra não foi realizada.
As dificuldades no abrigo improvisado
Assim
como Dulcilene, cerca de 70 pessoas, entre adultos e crianças, ficaram
instaladas em uma creche da prefeitura, que apesar disso continuou com
as suas atividades normalmente. As salas de aulas se transformaram em
quartos, que por muitas vezes eram ocupados por três famílias ao mesmo
tempo. Além do desconforto e da falta de espaço, essas pessoas ainda
tinham que sair das salas às 7h e só podiam retornar após às 14h,
quando terminam as atividades escolares.
Os desabrigados
começaram a receber o aluguel social no dia 4 de maio, mas não adiantou
muito. “Com esse dinheiro nem no morro a gente consegue alugar alguma
coisa. Além disso, teremos que pagar luz, água e comprar coisas para a
casa, pois perdemos tudo! É um absurdo o que estão nos pagando”,
reclamou o morador Marcos dos Santos.
Os moradores contam que
as doações nas semanas posteriores à tragédia diminuíram. Os alimentos
não perecíveis eram suficientes, entretanto, faltavam material de
limpeza, biscoitos e achocolatados. Os desabrigados lamentavam a
ausência de temperos, frutas, legumes, verduras e carne.
Uma desgraça encobre a outra
Outra
reclamação foi contra o descaso do poder público e da imprensa, que
tinham todas as atenções voltadas para o Morro do Bumba. “Aqui nós
também estamos sofrendo, aqui também morreu gente, mas a televisão só
mostra o Bumba”, reclamou Juliana Pereira. Moradores relatam que
helicópteros de grandes empresas de comunicação passavam direto por
áreas afetadas sem filmarem o local, indo direto para o Bumba.
No
dia 7 de maio, exatamente um mês após a tragédia, os desabrigados foram
transferidos para o 3º Batalhão de Infantaria. Segundo eles, o 3º BI
fica em uma região onde predomina uma facção criminosa rival à
atuante no Morro do Céu. Além disso, os moradores ficam mais
distantes de seus locais de trabalho. É o mesmo problema enfrentado
pelas crianças, que não recebem bilhete para o transporte e vão
sozinhas a pé para a escola.
Carolina Custódio, Felipe Siqueira, Filipe Cabral e Júlia Bertolini
Montanha de lixo, Morro do Céu
(Foto: Carolina Custódio)
Com
36 anos vividos no Morro do Céu, um dos líderes da comunidade, Luciano
Cruz Silva, denuncia que “o lixão veio crescendo, crescendo, crescendo
e hoje o cara abre a porta da cozinha e dá de cara com a montanha de
lixo”. Em desabafo, o técnico em enfermagem comparou a situação à do
Morro do Bumba: “A situação que vocês acompanharam no Bumba do mau
cheiro e do chorume, o próprio secretário de Segurança dizendo que
aquilo causa um malefício enorme você respirar, as pessoas se sentindo
mal, os cães farejadores... Nós aqui estamos em situação pior que os
cães farejadores da polícia. Aqui nós convivemos com isso há 25 anos”.
De
acordo com Luciano, há cerca de quatro anos os moradores organizaram um
comitê para discutir com a prefeitura de Niterói a questão do
tratamento do lixo na região. No período das chuvas, em abril, os
moradores disseram ter se assustado com estrondos e deslizamentos de
terra no lixão. No entanto, a Companhia de Limpeza de Niterói (Clin)
alegou que não se tratava de explosões ocasionadas por gases tóxicos,
como no Bumba, mas apenas uma erosão de material superficial.
Veja o vídeo da entrevista com Luciano: parte 1. Quanto vale?
Apesar da interdição da unidade de depósito de lixo, e de visitas de
autoridades civis e do Ministério Público, o impasse permanece. Os
moradores garantem que o Ministério Público e a Defesa Civil teriam
interditado aproximadamente 200 casas, tendo em vista a iminência de
futuros deslizamentos e a intenção de construir um aterro sanitário no
lugar. Porém, nem 20% das propriedades teriam sido indenizadas até o
momento. Luciano afirma que a proposta do governo não corresponde ao
valor real das casas e, além disso, seria exigida uma burocracia que os
moradores não conseguem cumprir.
“Vocês sabem da burocracia
e dos valores altíssimos para tirar uma escritura. Você tem que ter um
engenheiro, advogado, arquiteto. E para eles fazerem a indenização
aqui, eles estão querendo o RGI. Eu desempregado, com dois filhos. Como
é que eu vou hoje custear um advogado, um engenheiro, certidão de ônus
reais, certidão de não sei o quê, certidão de não sei que lá, para
conseguir tirar um RGI para uma casa que vai virar lixo, que vai virar
um aterro sanitário”, argumentou o morador, que lembra que a maioria
das propriedades foi adquirida por contrato de compra e venda há mais
de cinco décadas.
Embora o próprio governador Sérgio Cabral,
em entrevista, tenha considerado a situação do Morro do Céu calamitosa,
centenas de pessoas têm sido obrigadas a permanecer no local por falta
de recursos, como é o caso de Vera Lúcia dos Santos, residente ali há
mais de 30 anos.
Vera Lúcia, moradora do Morro do Céu há 32 anos,
teve sua casa interditada
(Foto: Carolina Custódio)
Vera é uma das que ainda não conseguiram
receber a indenização pela casa, embora já tenha a documentação em
mãos. Além disso, a aposentada reclama que os R$ 400 recebidos através
do aluguel social, fornecido pelo Governo do Estado, não são
suficientes para cobrir as despesas mensais. A costureira lamenta o
fato de, por enquanto, não conseguir nem mesmo receber parentes e
amigos em casa.
"Há muito tempo a gente não sente um cheiro de
um alimento bem feitinho, de uma comida. A gente limpa a casa e não
sente um cheirinho de casa limpa. Vivemos uma vida impedidas de fazer
muita coisa. Como no meu aniversário. Fizeram um churrasco para mim e
eu tampei tudo e levei para a casa da minha irmã. Não havia condições,
ou você comia com mosca ou não comia”, relatou Vera Lúcia.
Miguel Baldez em frente a fotografias de Sebastião Salgado
“Essa aqui é um pouco da minha história”, diz Miguel Baldez, apontando para duas fotografias de Sebastião Salgado sobre a luta pela terra, expostas numa das paredes da sala de sua casa, em Lins de Vasconcelos, subúrbio do Rio. Foi assim, afável e acolhedor, que o ex-procurador do Estado e velho militante da causa da moradia recebeu a repórter para esta entrevista.
Baldez tem uma longa história nessa luta. Participa de movimentos populares desde o início da década de 60, com o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). Manteve a militância durante a ditadura militar e, nos anos 80, participou da fundação do Núcleo de Terras da Procuradoria do Estado, oferecendo assessoria aos movimentos sociais empenhados nessa área, na cidade e no campo. Hoje, aos 80 anos, continua na ativa, apoiando associações de moradores de favelas no Rio de Janeiro, além de organizações populares ligadas ao Movimento dos Sem-Terra. Como professor de Direito, conquistou uma legião de jovens admiradores, e produziu uma série de artigos contra o que chama de “cerca jurídica da terra”, e que resultam neste convite contestador:
Texto e fotos: Rafaella Barros e Elson de Souza e Silva Jr.
Morro dos Prazeres, Rio de Janeiro
Quase dois meses após a tragédia das chuvas no Rio de Janeiro, que matou mais de 30 pessoas e destruiu dezenas de casas no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, os moradores ainda convivem com um incômodo cenário: imóveis destruídos, pessoas morando de favor na casa de amigos e parentes, esgoto a céu aberto e a interrupção do fornecimento de luz, água e telefone. Por isso, tudo indicaria que o reassentamento total da comunidade, defendido pela prefeitura, seria uma escolha unânime entre os moradores. Mas não é assim.
Os interesses econômicos e a especulação imobiliária, acelerada pela contagem regressiva para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, estão na base da defesa das remoções de favelas, de acordo com os integrantes do Najup – Núcleo de Apoio Jurídico Popular, coordenado pelo ex-procurador Miguel Baldez. Reunido no dia 14 de junho, em sua sede, no Centro do Rio, o grupo debateu as melhores formas de continuar a agir em apoio às comunidades afetadas pelas chuvas do início de abril.
Este blog reuniu, entre abril e julho de 2010, um grupo de seis professores do Departamento de Comunicação Social da UFF: Danielle Brasiliense, Denise Tavares, Ildo Nascimento, Larissa Morais, Suzana Barbosa e Sylvia Moretzsohn. Foi elaborado pelos estudantes Gabriel Gomes e Luciana Pacheco. Hoje, o blog permanece sendo coordenado pelos professores Ildo Nascimento e Marcio Castilho.