Já era tarde da noite, por volta das 22h. Chovia e ventava bastante naquela quarta-feira, dia 7 de abril de 2010. A diarista Leandra Maria de Oliveira, 40, já estava em casa com o marido, paraplégico, quando se preparava para dormir. Quando a chuva começou a ficar mais intensa, Leandra recebeu a ligação de uma sobrinha que avisara que o morro estava caindo. Foi aí que a sua vida se tornou um pesadelo.
Leandra morava com o marido e mais cinco filhos na época em que houve o deslizamento do Morro do Bumba, em Niterói, tragédia que matou 169 pessoas na cidade e deixou mais de 13 mil desabrigados. Natural de Volta Redonda, a diarista morava havia 16 anos no morro e nunca tinha presenciado algo tão tenebroso como naquela noite.
Os legistas trabalham praticamente sem descanso. No fim da tarde de sexta, já haviam realizado a necrópsia de todas as vítimas, mas o quadro se altera rapidamente com a chegada de mais corpos. A movimentação de parentes continua intensa, mas diminuiu em relação aos primeiros dois dias. Os corpos vêm sendo liberados rapidamente para os enterros. Os processos de identificação de cadáveres não reclamados é o que atrasa muitas liberações.
O casal José Soares Lino, de 56 anos, e Maria da Conceição Oliveira, de 60, aceitou a contragosto falar da tragédia vivida no dia 6 de abril. Cansados do insistente assédio dos repórteres durante tantos dias, os dois se mostraram irritados no início. Mas, aos poucos, a conversa foi se desenvolvendo.
Dona Maria demonstra interesse, apesar da precária situação de saúde em que se encontra. Sentada em uma cadeira de rodas por causa de um acidente vascular cerebral três meses antes do desastre no morro, com os movimentos bastante prejudicados, ela acompanha atentamente a fala do marido sobre o dia da tragédia.
José conta que, como sua casa estava em obras, ele e a esposa estavam passando uns dias numa outra residência, onde moraram anos atrás. Dava o jantar à esposa quando as luzes se apagaram. Logo vieram dois estrondos fortes e muita lama.
Francisco mostra os estragos
causados pelo deslizamento
Eram quatro e meia da manhã do dia 6 de abril quando o mundo começou a desabar na comunidade 398 da Estrada da Cachoeira, em Niterói. Atordoadas com o inesperado, as pessoas desciam com a roupa do corpo, sem saber o que fazer. Até encontrarem um lugar para se abrigar, foram quase 16 horas debaixo de chuva. A maior parte ficou na Avenida Rui Barbosa, entre dois morros onde os deslizamentos deixaram os moradores ilhados e com lama até os joelhos.
O primeiro desabamento deixou três mortos. Os próprios vizinhos cavaram a terra e retiraram os corpos.
Padre José Maria, da Igreja Imaculado Coração de Maria, foi quem, por iniciativa própria, abrigou parte da comunidade. Também foi ele que procurou a diretora da escola municipal Helena Antipoff, onde estão os demais desalojados. Segundo os moradores, a Prefeitura só compareceu para retirar a lama da avenida. Sentindo-se esquecidos – inclusive porque nem a escola nem a igreja constam da lista de abrigos publicada no site da Prefeitura –, eles organizaram um protesto, mas denunciaram que foram reprimidos pela polícia com gás de pimenta: todos, inclusive idosos e mulheres grávidas. Planejam outra mobilização, mas agora pedem a presença de jornalistas. “Não precisa nem sair na televisão, só de ter gente filmando a polícia já não vai atacar a gente”, diz Cláudio Eduardo dos Reis, um dos moradores da comunidade.
Francisco de Assis Abreu, 44 anos, morava há 18 na comunidade da Estrada da Cachoeira e disse que nunca tinha visto nada igual. Ele, mulher e filho de 12 anos ficaram só com a roupa do corpo, já que sua casa foi completamente destruída. “Você não sabe o que é pagar uma casa durante sete anos e ela cair em segundos”, desabafa. Francisco ficou em estado de choque e por um tempo não conseguiu ir ao locar onde morava. Da primeira vez que retornou, passou mal. Assim como outras pessoas do abrigo, ele diz que agora vive à base de remédios para hipertensão.
Solidariedade e conflito
Na escola Helena Antipoff, onde as aulas estão suspensas – inclusive porque a maioria dos alunos é de lá mesmo e agora a utiliza como abrigo –, misturam-se cenas de solidariedade e conflito. O clima é familiar, porque aquela é uma comunidade pequena, onde todos se conhecem. Os idosos se distraem jogando dominó, as crianças têm “aulas” de brincadeira para passar o tempo. Mas não existe privacidade, todos têm de obedecer a horários fixos para as refeições e para se recolher – o abrigo fecha às dez da noite e só reabre às seis da manhã. São três banheiros para 125 pessoas, o banho é de balde, as crianças escovam os dentes ao ar livre e cospem no ralo. Os animais de estimação dos moradores também foram recolhidos ali e nem todos são muito amigáveis. Ainda assim, Jéssica Cruz, de 19 anos e grávida de oito meses, consegue sorrir e dizer: “está tudo bem”.
Nem tanto. A mãe de Cláudio dos Reis, que sofreu um derrame, não aguentou a algazarra das crianças e, como outros moradores, resolveu retornar para sua casa, mesmo em área de risco. Mas a dificuldade de convívio não é o único motivo: é grande a preocupação com invasões e furtos. voltar é também uma forma de tentar preservar os bens que lhes restaram, evitar invasões e furtos. Afinal, as casas que resistiram foram abandonadas do jeito que estavam: luzes acesas, roupas no varal, portas abertas e eletrodomésticos dentro.
Galeria:
Francisco de Assis mostra os estragos e caminha sobre os escombros onde três pessoas morreram na Estrada da Cachoeira. A seguir, detalhe da acolhida na igreja do Sagrado Coração, e da escola Helena Antipoff, onde foram improvisadas aulas de brincadeira para entreter as crianças.
Este blog reuniu, entre abril e julho de 2010, um grupo de seis professores do Departamento de Comunicação Social da UFF: Danielle Brasiliense, Denise Tavares, Ildo Nascimento, Larissa Morais, Suzana Barbosa e Sylvia Moretzsohn. Foi elaborado pelos estudantes Gabriel Gomes e Luciana Pacheco. Hoje, o blog permanece sendo coordenado pelos professores Ildo Nascimento e Marcio Castilho.