Por Mário Cajé e André Coelho
Em sua sala na Escola de Engenharia da UFF, o professor Elson do Nascimento mostra os documentos do PMRR (Plano Municipal de Redução de Riscos de Instabilidade de Encostas e de Inundação), que estiveram no centro da polêmica em torno da responsabilidade da prefeitura de Niterói sobre a tragédia no Morro do Bumba. O estudo, coordenado por ele, reuniu uma equipe de 16 pessoas, entre docentes e estudantes de graduação e pós-graduação, e foi entregue à prefeitura no início de 2007. Previa o investimento de R$ 19 milhões em obras para as áreas de risco em todo o município. Agora, diz o professor, os gastos com as consequências das chuvas, para Niterói e São Gonçalo, são calculados em R$ 200 milhões. Pior: “quando se liberar algum recurso, o problema será outro: a dengue, a segurança pública, alguma outra prioridade”, e o problema das encostas passará novamente para segundo plano.
Nesta entrevista, Elson fala das dificuldades enfrentadas pelos pesquisadores para verem as consequências práticas de seus estudos e alerta para a situação emergencial no Morro do Céu: “ali é uma área totalmente imprópria para habitação. Não há alternativa senão a retirada das pessoas”.
A partir do ocorrido no Morro do Bumba, o senhor sabe se a prefeitura de Niterói reavaliou sua posição sobre os estudos, procurando adotar as medidas propostas pela equipe técnica?
A história da humanidade mostra que as tragédias levam, naturalmente, à mudança de comportamento. As medidas que estão sendo tomadas agora são emergenciais e normais em eventos desse tipo: atendimento às vítimas, realocação, resolução dos casos de óbito. Os problemas climáticos devem ser tratados preventivamente, lembrando que estamos num clima tropical, caracterizado por chuvas intensas a partir de dezembro até março ou abril. Só daqui a alguns meses poderemos avaliar se houve de fato esta mudança de comportamento.
Existem estudos similares atualmente sendo desenvolvidos pela UFF?
Nós desenvolvemos e já concluímos o PMRR para a cidade de São Gonçalo, nos mesmos moldes do que foi desenvolvido para Niterói. Este plano faz parte de uma iniciativa do Ministério das Cidades e hoje, pelas informações que possuímos, 66 municípios dispõem do estudo. O objetivo é orientar a aplicação de verbas de forma preventiva, propondo, no caso das encostas, as drenagens e as obras de geotecnia para que, assim, as ações surtam efeito para o período seguinte de chuvas.
Desses 66 municípios, quais realizaram as propostas?
O Rio de Janeiro é um deles. O Rio já vem trabalhando nesta linha há bastante tempo, bem antes do plano, criando, inclusive, a Geo-Rio, uma empresa municipal dedicada exclusivamente à contenção de encostas. Existe também a Rio Águas, responsável pela parte de drenagem. Pela cidade do Rio é possível observar obras estruturais de engenharia bem significativas, preventivas. O deslizamento é, na verdade, um processo natural, já que a crosta terrestre vai sendo moldada ao longo dos milhões de anos, sobretudo pela ação dos ventos e das águas. O que não é natural é que haja residências nos locais impróprios. A intervenção humana, de maneira geral, acelera o processo de erosão, mas, com certeza, também pode retardá-lo, se esta intervenção ocorrer de forma adequada.
Como é o processo desde a elaboração até a aplicação dos estudos?
São dois momentos: primeiro a universidade faz o estudo, a pedido das prefeituras. A implementação é o segundo momento e depende exclusivamente da prefeitura. Pode haver, inclusive, o convite para que a universidade acompanhe e assessore a aplicação do plano. Isto é o máximo que a universidade pode fazer, uma vez que ela não é um órgão executivo. Assim, se formos convidados a colaborar na implantação do sistema, há por parte da universidade o interesse em participar, mas isso depende das administrações.
Se as propostas sugeridas pelos pesquisadores não têm sido implementadas pela prefeitura de Niterói, qual teria sido a razão da solicitação dos estudos? O senhor considera que haja realmente a intenção de realizar os projetos?
É muito difícil dizer a razão para isso. O objetivo da universidade é realizar os estudos, seja para as prefeituras ou para o setor privado, quando este solicita pesquisas e consultoria para o planejamento das suas decisões. No entanto, a pesquisa pode servir apenas como uma eventual alternativa, não havendo obrigação em seguir as propostas do projeto.
A prefeitura tinha algum estudo paralelo?
Não. Houve estudos anteriores, mas não tão detalhados. Este plano cobria todo o município. O Instituto de Geociências da UFF também fez um estudo em nível municipal, mas que abrangia especificamente a parte geológica e serviu de entrada para o PMRR. Não sei por que o plano não foi aplicado. As prefeituras possuem muitas demandas e existe uma lógica, de certa forma, perversa. As aplicações e as decisões governamentais atendem mais a classe média que a pobre. Enquanto as instituições privadas costumam aplicar as consultas feitas à universidade, na gestão pública a lógica é diferente. No caso específico deste plano, o orçamento previsto para todo o município de Niterói foi de R$ 19 milhões. Para o Morro do Bumba, foram previstos R$ 419 mil para obras de engenharia, estruturas de drenagem e geotécnicas. A metodologia previa obras de baixo custo. Pelas informações que temos, em 2009 foram aplicados R$ 50 mil em contenção de encostas para todo o município, o que, de fato, é muito pouco. Ainda em 2004, quando visitamos o Morro do Bumba, detectamos problemas de drenagem na estrada.
Qual seria, em Niterói, a área em que a desocupação seria mais urgente?
Numa avaliação geral, pelo menos 30% da população de Niterói, cerca de 150 mil pessoas, vivem em encostas. Dessas, há um número muito elevado morando em áreas de risco, e por isso não é possível, em curto prazo, promover uma desocupação. No PMRR estão previstas algumas realocações dos pontos que estão na linha do encaminhamento natural das águas. Destes locais as pessoas devem ser retiradas. A nossa proposta é que a realocação deve se dar apenas nos casos extremos, até mesmo pela viabilidade. O plano orienta a priorização das obras de drenagem e de contenção de encostas, mas principalmente as de drenagem. Mesmo os terrenos mais frágeis, se forem bem drenados, dificilmente sofrerão deslizamentos. Por outro lado, com o tempo, a erosão e a ação das águas, mesmo a estrutura geotécnica mais bem plantada pode se tornar perigosa. Por isso, não só os pobres são atingidos, mas também as mansões, casas de classe média e alta, construídas dentro de toda a técnica de engenharia. Se não forem observadas, as alterações do encaminhamento natural das águas podem, num processo lento, fazer com que a estrutura se torne uma área de risco. A grande questão é a falta de preocupação com a drenagem.
No PMRR, o Morro do Bumba está definido como área de risco, enquanto o Morro do Céu foi classificado como área de grande risco. Como o senhor avalia a situação atual do Morro do Céu?
O Morro do Céu é uma situação idêntica à do Bumba. A diferença fundamental é que o lixão do Morro do Céu ainda está ativo. A imprensa divulgou que, de imediato, já se decidiu pela retirada da população do morro. Aí já não é uma ação emergencial, mas sim uma atitude preventiva, porém resultante de um clamor popular. O Morro do Céu é uma situação típica de remoção. Não adianta drenar, replantar a vegetação, ali é uma área totalmente imprópria para habitação. Não há alternativa senão a retirada das pessoas.
Sabendo da tradição de nossa política de abandonar tudo o que gestões anteriores realizaram, ainda que em benefício da população, como o senhor encara a descontinuidade da aplicação dos projetos, decorrente de mudanças de administração e de orientações político-partidárias?
A classe política do Brasil, com raras e honrosas exceções, tem evoluído muito pouco em relação às suas atitudes. Infelizmente, as situações clássicas de gestão do voto prevalecem nas decisões administrativas. Eu diria que, em relação à sociedade como um todo, a política tem fracassado em termos de avanço da postura. O servidor público não deve fazer voto de pobreza, mas o que não é aceitável é deixar de tomar certas atitudes por serem eleitoralmente desfavoráveis. Tanto no Rio como em Niterói, depois da tragédia, o que tenho visto é uma mobilização intensa, com máquinas, homens, veículos, equipamentos. Vemos que eles têm os equipamentos, os recursos, mas não há esta mesma mobilização de forma preventiva. A Holanda, por exemplo, é um país que tem um problema típico de drenagem, precisando drenar dia e noite. Pelo menos 20% do país estão abaixo do nível do mar. Já é da cultura da sociedade holandesa que o governante que não cuidar da drenagem, não fizer a limpeza dos canais, não se reeleja. Quando chega o período anterior às chuvas, esta é a prioridade número um. Aqui, quando assumirmos este comportamento, faremos obras preventivas nos meses em que não chove, já que soluções emergenciais são limitadas, pois quando vêm as chuvas, novamente o problemas aparece. Numa reunião do governador com os prefeitos de Niterói e são Gonçalo, fez-se uma estimativa de mobilização de R$ 200 milhões para as encostas, enquanto o PMRR custaria R$ 19 milhões. O discurso da liberação dos recursos no momento da tragédia, que gera visibilidade na imprensa, vai, do ponto de vista prático, se diluir e quando se liberar algum recurso, o problema será outro: o trânsito, a dengue, a segurança pública, enfim, alguma outra prioridade que vai canalizar a atenção de todo o sistema de gestão. O problema passará novamente para segundo plano. Esta lógica tem que se repensada.
Tudo isso obviamente envolve uma mudança de consciência também por parte da população...
Claro. Neste ponto os profissionais da área de comunicação podem contribuir muito. A imprensa acompanhou de perto o processo de elaboração do plano e eu acreditei que daria certo. Infelizmente ainda não foi desta vez. O estudo está parado.
Voltar para a página principal.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Entrevista com Julio Wasserman: " Estudos não geram votos"
Por Adriana Martins e Karla Vidal
Coordenador da Rede UFF de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, o professor Júlio Wasserman, do Departamento de Análise Geoambiental, acusa a prefeitura de Niterói de descaso na realização de pesquisas que possam orientar ações preventivas de tragédias como a que ocorreu no início de abril. Nesta entrevista, explica também os cuidados necessários para a instalação de aterros sanitários e indica formas alternativas para o tratamento do lixo urbano. Mas não se limita aos aspectos técnicos: ao falar sobre os critérios para a definição do local para um aterro, diz que o principal “é que ninguém quer um aterro sanitário no jardim de casa. Por isso, eles normalmente são instalados em áreas de baixa resistência social, onde a população é mais ignorante, menos organizada e tem menor poder de voz”.
A Prefeitura de Niterói foi procurada para responder às críticas do pesquisador, mas não quis se manifestar.
O senhor realizou estudos sobre áreas de risco em Niterói?
Pessoalmente não fiz nenhum estudo deste tipo, pois a Prefeitura de Niterói tem sido muito refratária ao financiamento de pesquisas da UFF. Em 1995 tivemos um financiamento de R$ 20 mil da Prefeitura para estudarmos o impacto da construção de uma barreira no canal de Camboatá (Lagoa de Piratininga). Realizamos o estudo com grande sucesso, mas nos pagaram apenas 50% do valor contratado, através de convênio. Na UFF, o Prof. Elson do Nascimento, da Engenharia Civil, obteve algum recurso para fazer um estudo sobre drenagem, mas não pôde ir muito longe por descontinuidade. O Prof. Adalberto Silva, do Lagemar [Programa de Pós-Graduação em Geologia e Geofísica Marinha], também fez um estudo muito preliminar, analisando apenas a declividade das encostas. Veja que os estudos são muito significativos, mas a Prefeitura NUNCA esteve disposta a pagar estudos mais aprofundados. Os valores envolvidos giram em torno de R$ 50 a 100 mil, o que não dá para fazer um trabalho mais detalhado.
Na verdade cabe à Prefeitura buscar os técnicos (e na UFF há muitos e extremamente competentes) e financiar as pesquisas, caras ou baratas. O que não pode é deixar a cidade neste estado.
Uma coisa importante que vale sublinhar é que não nos cabe, como professores universitários ou servidores públicos fazer pesquisas gratuitas para prefeituras. Fazemos muitos estudos com recursos do CNPq, Finep, Faperj, entre outros, mas não é nossa missão paliar a irresponsabilidade de gestores públicos.
Os pesquisadores propõem estudos por iniciativa própria ou respondem a encomendas?
Já fizemos um número imenso de propostas às prefeituras de nossa região (Niterói, São Gonçalo, Maricá, Itaboraí, Rio de Janeiro, etc), contudo, nos alegam sistematicamente a falta de recursos. Na verdade o que existe é uma completa ausência de prioridade na realização de estudos. Os estudos não dão votos! E, além disto, mesmo quando fazemos estudos, eles esperam que resultem em obras que rendam votos. A coisa nem sempre funciona assim e, quando fazemos algum trabalho, acabamos provocando grande frustração. Imagine se uma pesquisa no morro do Bumba concluísse que as famílias precisariam ser retiradas dali. Isto não geraria voto (pelo contrário). Assim, em vez de estudos caros, a Prefeitura preferiu gerar infra-estrutura para aquela comunidade, resultando na catástrofe que acabamos de ver.
Mas a prefeitura não teria mesmo recursos para as pesquisas?
Não acredito que seja uma questão de custo, mas de prioridade. É impossível falar em custo elevado em uma prefeitura riquíssima como a de Niterói. Na verdade, tradicionalmente as autoridades que se sucedem em Niterói têm uma forte aversão à realização de estudos, principalmente concernentes ao meio ambiente. Basta verificar na Reitoria e na FEC (fundação da UFF) o montante de recursos repassados anualmente pela Prefeitura para execução de pesquisas. É muito provável que não ultrapasse a média de R$ 50 mil por ano, resultantes das ações de dois secretários que são professores da UFF aposentados!
Que impactos os aterros sanitários podem causar ao meio ambiente? Conhece alguma alternativa para os lixões? Como a cidade pode tratar seu lixo?
Os impactos dos aterros sanitários podem ser minimizados de maneira significativa desde que sejam muito bem construídos e muito bem geridos, contando com sistema de tratamento de chorume (fase aquosa do lixo, sobretudo orgânico), programa de seleção e reciclagem do lixo, sistema de evacuação de gases com queimadores do metano, etc. Os aterros podem causar uma série de impactos, desde a emissão de gases de efeito estufa (metano e CO2), infiltração do chorume contaminado com metais pesados, poluentes orgânicos persistentes, matéria orgânica, hidrocarbonetos, etc., até impactos paisagísticos e sociais (comunidades de catadores). Um sistema alternativo para os lixões são justamente os aterros controlados, onde todos os possíveis impactos são controlados e monitorados (no lixão isto não acontece, pois é como um vazadouro de lixo, sem que nenhum procedimento de gestão seja realizado). Uma alternativa é a queima do lixo orgânico ou sua conversão por pirólise anaeróbica. Para estas duas tecnologias é necessário controlar a emissão de dioxinas, uma substância cancerígena emitida para a atmosfera que vai se depositar na vegetação e pode atingir o homem.
Atualmente um aterro sanitário ou aterro controlado pode ser uma área bastante segura e de baixo impacto ambiental, basta para isto a realização de grandes investimentos em tecnologia de preparação do solo, tratamento do chorume, etc. Eu particularmente defenderia a idéia de substituir os aterros sanitários por centros de tratamento de resíduos (comuns na Europa), onde existem sistemas de coleta seletiva, associados a empresas de reciclagem (ferro, alumínio, garrafas pet, papel, etc). Parte dos resíduos orgânicos pode ser dirigida a usinas de compostagem (a céu aberto ou anaeróbico), formando adubo orgânico (sistema aeróbico) ou biogás e outros combustíveis (sistema anaeróbico). O material inservível e não reciclável pode ser incinerado em fornos de plasma, que permitem a destruição das substâncias tóxicas que eventualmente são geradas na queima.
Qual a diferença exata entre lixão e aterro sanitário?
Um aterro sanitário é uma área que foi estruturada para receber o lixo de uma cidade. Existem vários níveis e tipos de aterros sanitários, com diversos equipamentos para evitar impactos ambientais. O aterro do Morro do Céu, que atende à cidade de Niterói, é um aterro sanitário com nível de controle de impactos bastante baixo. Existem sistemas de evacuação de gases (o tal do metano), drenagem do chorume, existe uma separação muito simplificada dos lixos perigosos (hospitalares). Tem também um sistema de recobrimento (aterramento) do lixo por camadas, isto é, cada vez que as camadas de lixo atingem uma determinada espessura, elas são recobertas com um aterro composto por terra e entulho. Falta um sistema de tratamento do chorume (que é lançado nos rios da vizinhança), sistema de queima do metano (flares), separação mais cuidadosa dos lixos perigosos, com a construção de barreiras para evitar o acesso de catadores. Existe uma instalação para separação do lixo, mas está inativa e o lixo é catado no próprio vazadouro.
Um lixão não tem nenhum tipo de organização e o lixo é simplesmente lançado no solo diretamente. Pelo que ouvi falar, era o caso do Morro do Bumba, mas não conheço nenhum registro histórico confiável.
Qual o critério de escolha do lugar para um aterro sanitário?
Existem vários critérios técnicos, como geologia do terreno, drenagem, tipo de solo, etc. Contudo, o principal critério é que ninguém quer um aterro sanitário no jardim de casa. Por isso, eles normalmente são instalados em áreas de baixa resistência social. Normalmente comunidades pobres, de baixa escolaridade e baixo nível de conscientização. A Barra da Tijuca, por exemplo tem lugares excelentes, do ponto de vista técnico, para instalação de aterros sanitários, contudo a resistência dos moradores impede sequer que consideremos tal hipótese.
Mas seria melhor construir um aterro sanitário na Barra do que em Gramacho (Duque de Caxias), Itaoca (São Gonçalo) e Morro do Céu (Niterói)?
Como disse, embora exista espaço, provavelmente será muito difícil construir um aterro sanitário na Barra, pois a pressão das empreiteiras e da população seria muito forte. A tendência seria a construção do novo aterro do Rio de Janeiro na Zona Oeste (Campo Grande, Santa Cruz e cercanias). São as áreas que chamamos de baixa resistência social, onde a população é mais ignorante, menos organizada e tem menor poder de voz.
Seria possível permitir construções residenciais em cima de um antigo aterro sanitário? Sob quais condições? E em quanto tempo?
Atualmente temos tecnologia para ir à lua, não vejo porque não seríamos capazes de construir por sobre lixões e aterros sanitários. Isto acontece em vários locais do mundo, contudo, a preparação para a construção é bastante complexa e na maioria das vezes é melhor fazer replantio de vegetação original. Conheço exemplos de construção de campos de golfe, áreas de lazer, entre outras. No caso do Morro do Bumba, nada foi feito. Trata-se de área de invasão, com acordo tácito do poder público que inclusive instalou infra-estrutura de arruamento. É interessante notar que a rua que desmoronou tinha nome, o que deve ter sido aprovado pela Câmara de Vereadores, mostrando o comprometimento de toda a sociedade política.
Voltar para a página principal
Coordenador da Rede UFF de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, o professor Júlio Wasserman, do Departamento de Análise Geoambiental, acusa a prefeitura de Niterói de descaso na realização de pesquisas que possam orientar ações preventivas de tragédias como a que ocorreu no início de abril. Nesta entrevista, explica também os cuidados necessários para a instalação de aterros sanitários e indica formas alternativas para o tratamento do lixo urbano. Mas não se limita aos aspectos técnicos: ao falar sobre os critérios para a definição do local para um aterro, diz que o principal “é que ninguém quer um aterro sanitário no jardim de casa. Por isso, eles normalmente são instalados em áreas de baixa resistência social, onde a população é mais ignorante, menos organizada e tem menor poder de voz”.
A Prefeitura de Niterói foi procurada para responder às críticas do pesquisador, mas não quis se manifestar.
O senhor realizou estudos sobre áreas de risco em Niterói?
Pessoalmente não fiz nenhum estudo deste tipo, pois a Prefeitura de Niterói tem sido muito refratária ao financiamento de pesquisas da UFF. Em 1995 tivemos um financiamento de R$ 20 mil da Prefeitura para estudarmos o impacto da construção de uma barreira no canal de Camboatá (Lagoa de Piratininga). Realizamos o estudo com grande sucesso, mas nos pagaram apenas 50% do valor contratado, através de convênio. Na UFF, o Prof. Elson do Nascimento, da Engenharia Civil, obteve algum recurso para fazer um estudo sobre drenagem, mas não pôde ir muito longe por descontinuidade. O Prof. Adalberto Silva, do Lagemar [Programa de Pós-Graduação em Geologia e Geofísica Marinha], também fez um estudo muito preliminar, analisando apenas a declividade das encostas. Veja que os estudos são muito significativos, mas a Prefeitura NUNCA esteve disposta a pagar estudos mais aprofundados. Os valores envolvidos giram em torno de R$ 50 a 100 mil, o que não dá para fazer um trabalho mais detalhado.
Na verdade cabe à Prefeitura buscar os técnicos (e na UFF há muitos e extremamente competentes) e financiar as pesquisas, caras ou baratas. O que não pode é deixar a cidade neste estado.
Uma coisa importante que vale sublinhar é que não nos cabe, como professores universitários ou servidores públicos fazer pesquisas gratuitas para prefeituras. Fazemos muitos estudos com recursos do CNPq, Finep, Faperj, entre outros, mas não é nossa missão paliar a irresponsabilidade de gestores públicos.
Os pesquisadores propõem estudos por iniciativa própria ou respondem a encomendas?
Já fizemos um número imenso de propostas às prefeituras de nossa região (Niterói, São Gonçalo, Maricá, Itaboraí, Rio de Janeiro, etc), contudo, nos alegam sistematicamente a falta de recursos. Na verdade o que existe é uma completa ausência de prioridade na realização de estudos. Os estudos não dão votos! E, além disto, mesmo quando fazemos estudos, eles esperam que resultem em obras que rendam votos. A coisa nem sempre funciona assim e, quando fazemos algum trabalho, acabamos provocando grande frustração. Imagine se uma pesquisa no morro do Bumba concluísse que as famílias precisariam ser retiradas dali. Isto não geraria voto (pelo contrário). Assim, em vez de estudos caros, a Prefeitura preferiu gerar infra-estrutura para aquela comunidade, resultando na catástrofe que acabamos de ver.
Mas a prefeitura não teria mesmo recursos para as pesquisas?
Não acredito que seja uma questão de custo, mas de prioridade. É impossível falar em custo elevado em uma prefeitura riquíssima como a de Niterói. Na verdade, tradicionalmente as autoridades que se sucedem em Niterói têm uma forte aversão à realização de estudos, principalmente concernentes ao meio ambiente. Basta verificar na Reitoria e na FEC (fundação da UFF) o montante de recursos repassados anualmente pela Prefeitura para execução de pesquisas. É muito provável que não ultrapasse a média de R$ 50 mil por ano, resultantes das ações de dois secretários que são professores da UFF aposentados!
Que impactos os aterros sanitários podem causar ao meio ambiente? Conhece alguma alternativa para os lixões? Como a cidade pode tratar seu lixo?
Os impactos dos aterros sanitários podem ser minimizados de maneira significativa desde que sejam muito bem construídos e muito bem geridos, contando com sistema de tratamento de chorume (fase aquosa do lixo, sobretudo orgânico), programa de seleção e reciclagem do lixo, sistema de evacuação de gases com queimadores do metano, etc. Os aterros podem causar uma série de impactos, desde a emissão de gases de efeito estufa (metano e CO2), infiltração do chorume contaminado com metais pesados, poluentes orgânicos persistentes, matéria orgânica, hidrocarbonetos, etc., até impactos paisagísticos e sociais (comunidades de catadores). Um sistema alternativo para os lixões são justamente os aterros controlados, onde todos os possíveis impactos são controlados e monitorados (no lixão isto não acontece, pois é como um vazadouro de lixo, sem que nenhum procedimento de gestão seja realizado). Uma alternativa é a queima do lixo orgânico ou sua conversão por pirólise anaeróbica. Para estas duas tecnologias é necessário controlar a emissão de dioxinas, uma substância cancerígena emitida para a atmosfera que vai se depositar na vegetação e pode atingir o homem.
Atualmente um aterro sanitário ou aterro controlado pode ser uma área bastante segura e de baixo impacto ambiental, basta para isto a realização de grandes investimentos em tecnologia de preparação do solo, tratamento do chorume, etc. Eu particularmente defenderia a idéia de substituir os aterros sanitários por centros de tratamento de resíduos (comuns na Europa), onde existem sistemas de coleta seletiva, associados a empresas de reciclagem (ferro, alumínio, garrafas pet, papel, etc). Parte dos resíduos orgânicos pode ser dirigida a usinas de compostagem (a céu aberto ou anaeróbico), formando adubo orgânico (sistema aeróbico) ou biogás e outros combustíveis (sistema anaeróbico). O material inservível e não reciclável pode ser incinerado em fornos de plasma, que permitem a destruição das substâncias tóxicas que eventualmente são geradas na queima.
Qual a diferença exata entre lixão e aterro sanitário?
Um aterro sanitário é uma área que foi estruturada para receber o lixo de uma cidade. Existem vários níveis e tipos de aterros sanitários, com diversos equipamentos para evitar impactos ambientais. O aterro do Morro do Céu, que atende à cidade de Niterói, é um aterro sanitário com nível de controle de impactos bastante baixo. Existem sistemas de evacuação de gases (o tal do metano), drenagem do chorume, existe uma separação muito simplificada dos lixos perigosos (hospitalares). Tem também um sistema de recobrimento (aterramento) do lixo por camadas, isto é, cada vez que as camadas de lixo atingem uma determinada espessura, elas são recobertas com um aterro composto por terra e entulho. Falta um sistema de tratamento do chorume (que é lançado nos rios da vizinhança), sistema de queima do metano (flares), separação mais cuidadosa dos lixos perigosos, com a construção de barreiras para evitar o acesso de catadores. Existe uma instalação para separação do lixo, mas está inativa e o lixo é catado no próprio vazadouro.
Um lixão não tem nenhum tipo de organização e o lixo é simplesmente lançado no solo diretamente. Pelo que ouvi falar, era o caso do Morro do Bumba, mas não conheço nenhum registro histórico confiável.
Qual o critério de escolha do lugar para um aterro sanitário?
Existem vários critérios técnicos, como geologia do terreno, drenagem, tipo de solo, etc. Contudo, o principal critério é que ninguém quer um aterro sanitário no jardim de casa. Por isso, eles normalmente são instalados em áreas de baixa resistência social. Normalmente comunidades pobres, de baixa escolaridade e baixo nível de conscientização. A Barra da Tijuca, por exemplo tem lugares excelentes, do ponto de vista técnico, para instalação de aterros sanitários, contudo a resistência dos moradores impede sequer que consideremos tal hipótese.
Mas seria melhor construir um aterro sanitário na Barra do que em Gramacho (Duque de Caxias), Itaoca (São Gonçalo) e Morro do Céu (Niterói)?
Como disse, embora exista espaço, provavelmente será muito difícil construir um aterro sanitário na Barra, pois a pressão das empreiteiras e da população seria muito forte. A tendência seria a construção do novo aterro do Rio de Janeiro na Zona Oeste (Campo Grande, Santa Cruz e cercanias). São as áreas que chamamos de baixa resistência social, onde a população é mais ignorante, menos organizada e tem menor poder de voz.
Seria possível permitir construções residenciais em cima de um antigo aterro sanitário? Sob quais condições? E em quanto tempo?
Atualmente temos tecnologia para ir à lua, não vejo porque não seríamos capazes de construir por sobre lixões e aterros sanitários. Isto acontece em vários locais do mundo, contudo, a preparação para a construção é bastante complexa e na maioria das vezes é melhor fazer replantio de vegetação original. Conheço exemplos de construção de campos de golfe, áreas de lazer, entre outras. No caso do Morro do Bumba, nada foi feito. Trata-se de área de invasão, com acordo tácito do poder público que inclusive instalou infra-estrutura de arruamento. É interessante notar que a rua que desmoronou tinha nome, o que deve ter sido aprovado pela Câmara de Vereadores, mostrando o comprometimento de toda a sociedade política.
Voltar para a página principal
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Morro do Bumba, dois meses depois
Texto e Fotos: Laís Carpenter e Priscila Motta
Dos instantes de correria, pânico e desespero do dia 7 de abril restaram apenas duas escavadeiras, tapumes cercando o local, o chorume escorrendo pela terra ainda umedecida, lixo, destroços de casas e escombros do que sobrou do Morro do Bumba.
![]() |
|
Tapumes e escavadeiras na entrada do que restou do Bumba |
Defensora pública denuncia ilegalidade na demolição de casas em Niterói
Emily Luizetto
A defensora pública Maria Lúcia de Pontes denunciou que a prefeitura de Niterói vem demolindo de maneira arbitrária, indiscriminada e ilegal moradias situadas nos morros que sofreram deslizamentos durante o temporal do início de abril. “A Defesa Civil liberou apenas um auto de interdição para as casas, esse auto não permite que eles destruam nada”, disse ela. “As avaliações feitas nas casas são apenas visuais e sem nenhum estudo aprofundado. Antes da demolição deve ser feita uma avaliação com engenheiros e geólogos para elaboração de um laudo técnico conclusivo que condene as moradias, e um projeto de reassentamento das famílias”.
A defensora pública Maria Lúcia de Pontes denunciou que a prefeitura de Niterói vem demolindo de maneira arbitrária, indiscriminada e ilegal moradias situadas nos morros que sofreram deslizamentos durante o temporal do início de abril. “A Defesa Civil liberou apenas um auto de interdição para as casas, esse auto não permite que eles destruam nada”, disse ela. “As avaliações feitas nas casas são apenas visuais e sem nenhum estudo aprofundado. Antes da demolição deve ser feita uma avaliação com engenheiros e geólogos para elaboração de um laudo técnico conclusivo que condene as moradias, e um projeto de reassentamento das famílias”.
Morro Boa Vista, São Lourenço: “O medo maior é que ninguém mais olhe por nós”
Marcos Abreu e Maira Renou
Foram sete mortos no Morro Boa Vista, em São Lourenço, Niterói. Os próprios vizinhos retiraram os corpos, porque o número de bombeiros era insuficiente. Cerca de 70 casas foram atingidas e há muitas outras sob risco. Moradores relatam que a Defesa Civil ainda não chegou ao local e que só após cinco dias dos deslizamentos apareceram dois médicos, que trabalharam ali por dois dias e nunca mais retornaram. Falar da tragédia que deixou um rastro de dor e desespero no local é voltar na madrugada do dia 6 de abril e se lembrar de tudo o que foi perdido com a chuva. Alguns moradores preferem o silêncio, outros colocam seus filhos para darem depoimentos.
Quatro abrigos estão funcionando no local. Um deles é a Igreja São Lourenço dos Índios, que acolhe cerca de 200 pessoas. Os bancos da nave foram afastados para dar lugar a colchões e roupas espalhadas por um espaço que ficou pequeno para tanta gente. A área dos fundos da igreja se transformou no quintal de uma grande casa, com varais de roupas, crianças correndo e senhoras sentadas à espera de algum sinal. Até ir ao banheiro passou a ser uma tarefa difícil. Há apenas dois banheiros químicos do lado de fora, emprestados por uma empresa privada.
Em tom de determinação e olhar de tristeza, Andréia dos Santos Almeida, uma das coordenadoras do abrigo, moradora da comunidade e voluntária, relata:
“Todas as áreas do abrigo foram improvisadas e estão sendo mantidas pelos próprios desabrigados. No inicio tínhamos alguns problemas de convivência, mas isso está melhorando. A vida agora está retomando, muitos dos adultos já voltaram para o trabalho e as crianças para a escola. O problema é que quando uma situação não choca mais, que ela é normal, as coisas se acomodam. O medo maior é esse, que ninguém mais olhe para os desabrigados que ainda estão sofrendo demais, eles tem que dividir uma sala às vezes com mais de 10 pessoas e nem da mesma família são”.
O amparo ao idoso na creche
Em outro abrigo da comunidade, a creche municipal Nilo Neves, há aproximadamente 130 pessoas. Entre elas, 10 feridos que recebem cuidados de uma única enfermeira voluntária, e muitos idosos. Valdir Barros, um senhor de idade, por exemplo, mesmo com o telhado do seu barraco prestes a desabar, quis permanecer nele, sozinho, com um ferimento sério na perna direita. Foi encontrado vagando na rua e recolhido para a creche. A área onde costumava morar está interditada. É possível ver outras casas abandonadas, vazias. Famílias que deixaram para trás o pouco que tinham. E pior do que isto são as moradias que foram afetadas, parcialmente destruídas ou com risco iminente de desabar, ainda habitadas.
As atividades desta creche voltaram a funcionar parcialmente. Valéria Gomes, voluntária que está à frente deste abrigo contou que na parte da manhã as crianças e idosos vítimas dos desabamentos são assistidas pelos funcionários da creche, enquanto no período da tarde as aulas foram retomadas. Em escolas com um número maior de desabrigados, menor infra-estrutura e organização, não há nem mesmo a hipótese dessas atividades em “meio período”. É o caso do Colégio Estadual Conselheiro Josino, no bairro do Fonseca, que também funciona como abrigo e, em meados de abril, reunia cerca de 170 pessoas. A situação ali é muito mais delicada, como conta o coordenador, Daniel Soares:
“No dia da chuva, o colégio foi aberto pelos moradores. Com a ajuda de uns policiais conseguimos arrombar a porta e começar a acomodar as pessoas. Logo no início foi muito complicado controlar a situação, tinha muitas brigas, sujeira e tudo o mais. Foi preciso um trabalho para educar eles, o que ajudou muito foi a vinda de uma psicóloga, também voluntária, a cada dois dias. As aulas do colégio estão suspensas e sem previsão de volta, os desabrigados não tem nenhuma atividade aqui, se não trabalham ou estudam ficam aí pelo pátio e pelas salas. As salas de aula estão cheias, tivemos que ter cuidado também na hora de juntar as famílias para conviver”.
O medo de deixar tudo para trás
Uma das moradoras do abrigo, Luciana Silva, de 29 anos, relatou outras preocupações: “A minha casa foi interditada pelos bombeiros, já que a Defesa Civil não veio aqui ainda. Há oito anos a nossa casa já tinha sido condenada, mas, como nenhuma outra providência foi tomada, eu e minha família continuamos aqui. Até porque, quando interditam, os móveis das pessoas são levados para um depósito e ficam lá, estragando. Muita gente tem medo disso, que as poucas coisas que sobraram ainda sejam estragadas desse jeito”.
A Escola Municipal Paulo Freire, também no bairro do Fonseca, abriga 180 pessoas, todas do Morro São José 340. Segundo a diretora, Jadinéia Cesário, graças às doações, a escola está bem abastecida com roupas, mantimentos e produtos de higiene. No entanto, o que sobra de material falta em assistência pessoal. Não há psicólogos, médicos, copeiro para fazer as refeições ou porteiro para vigiar a escola. “Nosso maior problema é a falta de remédios e de funcionários da saúde para atender essas pessoas. Quando alguém passa mal, como já aconteceu, eu tenho que pedir para ligarem para o Samu”, afirma Jadinéia, que desde o dia 7 de abril trabalha ali incansavelmente, organizando e alojando quem chega à procura de abrigo.
Sem previsão de volta às aulas, a escola deixa seus cerca de 800 alunos em casa. Mas alguns deles também sofreram com as chuvas e estão abrigados lá mesmo, com suas famílias. Andréa Dias, costureira e mãe de dois alunos, perdeu parentes e tudo o que tinha na casa que desabou. Morava no Morro 340 desde que nasceu e nunca havia passado por uma situação semelhante. Quanto ao futuro, a incerteza de como começar. “Não temos parentes aqui em Niterói, minha mãe morreu soterrada com meus irmãos. Demoraram cinco dias para os corpos serem resgatados. Não sei mais o que fazer da minha vida, não sei para onde ir."
Voltar para a matéria principal
Galeria:
Um aspecto da destruição no Morro da Boa Vista. A igreja de São Lourenço acolheu os desabrigados, que montaram um varal no quintal. A seguir, uma das vítimas, uma mulher que trabalhava varrendo a comunidade, e a menina ainda abalada com o que aconteceu.
Foram sete mortos no Morro Boa Vista, em São Lourenço, Niterói. Os próprios vizinhos retiraram os corpos, porque o número de bombeiros era insuficiente. Cerca de 70 casas foram atingidas e há muitas outras sob risco. Moradores relatam que a Defesa Civil ainda não chegou ao local e que só após cinco dias dos deslizamentos apareceram dois médicos, que trabalharam ali por dois dias e nunca mais retornaram. Falar da tragédia que deixou um rastro de dor e desespero no local é voltar na madrugada do dia 6 de abril e se lembrar de tudo o que foi perdido com a chuva. Alguns moradores preferem o silêncio, outros colocam seus filhos para darem depoimentos.
Quatro abrigos estão funcionando no local. Um deles é a Igreja São Lourenço dos Índios, que acolhe cerca de 200 pessoas. Os bancos da nave foram afastados para dar lugar a colchões e roupas espalhadas por um espaço que ficou pequeno para tanta gente. A área dos fundos da igreja se transformou no quintal de uma grande casa, com varais de roupas, crianças correndo e senhoras sentadas à espera de algum sinal. Até ir ao banheiro passou a ser uma tarefa difícil. Há apenas dois banheiros químicos do lado de fora, emprestados por uma empresa privada.
![]() |
| Na igreja, jovens se distraem jogando videogame |
Em tom de determinação e olhar de tristeza, Andréia dos Santos Almeida, uma das coordenadoras do abrigo, moradora da comunidade e voluntária, relata:
“Todas as áreas do abrigo foram improvisadas e estão sendo mantidas pelos próprios desabrigados. No inicio tínhamos alguns problemas de convivência, mas isso está melhorando. A vida agora está retomando, muitos dos adultos já voltaram para o trabalho e as crianças para a escola. O problema é que quando uma situação não choca mais, que ela é normal, as coisas se acomodam. O medo maior é esse, que ninguém mais olhe para os desabrigados que ainda estão sofrendo demais, eles tem que dividir uma sala às vezes com mais de 10 pessoas e nem da mesma família são”.
O amparo ao idoso na creche
![]() |
| Ferido na perna, Valdir recebe tratamento na creche Nilo Neves |
As atividades desta creche voltaram a funcionar parcialmente. Valéria Gomes, voluntária que está à frente deste abrigo contou que na parte da manhã as crianças e idosos vítimas dos desabamentos são assistidas pelos funcionários da creche, enquanto no período da tarde as aulas foram retomadas. Em escolas com um número maior de desabrigados, menor infra-estrutura e organização, não há nem mesmo a hipótese dessas atividades em “meio período”. É o caso do Colégio Estadual Conselheiro Josino, no bairro do Fonseca, que também funciona como abrigo e, em meados de abril, reunia cerca de 170 pessoas. A situação ali é muito mais delicada, como conta o coordenador, Daniel Soares:
“No dia da chuva, o colégio foi aberto pelos moradores. Com a ajuda de uns policiais conseguimos arrombar a porta e começar a acomodar as pessoas. Logo no início foi muito complicado controlar a situação, tinha muitas brigas, sujeira e tudo o mais. Foi preciso um trabalho para educar eles, o que ajudou muito foi a vinda de uma psicóloga, também voluntária, a cada dois dias. As aulas do colégio estão suspensas e sem previsão de volta, os desabrigados não tem nenhuma atividade aqui, se não trabalham ou estudam ficam aí pelo pátio e pelas salas. As salas de aula estão cheias, tivemos que ter cuidado também na hora de juntar as famílias para conviver”.
O medo de deixar tudo para trás
Uma das moradoras do abrigo, Luciana Silva, de 29 anos, relatou outras preocupações: “A minha casa foi interditada pelos bombeiros, já que a Defesa Civil não veio aqui ainda. Há oito anos a nossa casa já tinha sido condenada, mas, como nenhuma outra providência foi tomada, eu e minha família continuamos aqui. Até porque, quando interditam, os móveis das pessoas são levados para um depósito e ficam lá, estragando. Muita gente tem medo disso, que as poucas coisas que sobraram ainda sejam estragadas desse jeito”.
A Escola Municipal Paulo Freire, também no bairro do Fonseca, abriga 180 pessoas, todas do Morro São José 340. Segundo a diretora, Jadinéia Cesário, graças às doações, a escola está bem abastecida com roupas, mantimentos e produtos de higiene. No entanto, o que sobra de material falta em assistência pessoal. Não há psicólogos, médicos, copeiro para fazer as refeições ou porteiro para vigiar a escola. “Nosso maior problema é a falta de remédios e de funcionários da saúde para atender essas pessoas. Quando alguém passa mal, como já aconteceu, eu tenho que pedir para ligarem para o Samu”, afirma Jadinéia, que desde o dia 7 de abril trabalha ali incansavelmente, organizando e alojando quem chega à procura de abrigo.
Sem previsão de volta às aulas, a escola deixa seus cerca de 800 alunos em casa. Mas alguns deles também sofreram com as chuvas e estão abrigados lá mesmo, com suas famílias. Andréa Dias, costureira e mãe de dois alunos, perdeu parentes e tudo o que tinha na casa que desabou. Morava no Morro 340 desde que nasceu e nunca havia passado por uma situação semelhante. Quanto ao futuro, a incerteza de como começar. “Não temos parentes aqui em Niterói, minha mãe morreu soterrada com meus irmãos. Demoraram cinco dias para os corpos serem resgatados. Não sei mais o que fazer da minha vida, não sei para onde ir."
Voltar para a matéria principal
Galeria:
Um aspecto da destruição no Morro da Boa Vista. A igreja de São Lourenço acolheu os desabrigados, que montaram um varal no quintal. A seguir, uma das vítimas, uma mulher que trabalhava varrendo a comunidade, e a menina ainda abalada com o que aconteceu.
Na Estrada da Cachoeira, o protesto dos desabrigados
Por Paula Paiva e Anabel Moutinho
Galeria:
Francisco de Assis mostra os estragos e caminha sobre os escombros onde três pessoas morreram na Estrada da Cachoeira. A seguir, detalhe da acolhida na igreja do Sagrado Coração, e da escola Helena Antipoff, onde foram improvisadas aulas de brincadeira para entreter as crianças.
Fotos de Paula Paiva
Voltar para a matéria principal
![]() |
| Francisco mostra os estragos causados pelo deslizamento |
Eram quatro e meia da manhã do dia 6 de abril quando o mundo começou a desabar na comunidade 398 da Estrada da Cachoeira, em Niterói. Atordoadas com o inesperado, as pessoas desciam com a roupa do corpo, sem saber o que fazer. Até encontrarem um lugar para se abrigar, foram quase 16 horas debaixo de chuva. A maior parte ficou na Avenida Rui Barbosa, entre dois morros onde os deslizamentos deixaram os moradores ilhados e com lama até os joelhos.
O primeiro desabamento deixou três mortos. Os próprios vizinhos cavaram a terra e retiraram os corpos.
Padre José Maria, da Igreja Imaculado Coração de Maria, foi quem, por iniciativa própria, abrigou parte da comunidade. Também foi ele que procurou a diretora da escola municipal Helena Antipoff, onde estão os demais desalojados. Segundo os moradores, a Prefeitura só compareceu para retirar a lama da avenida. Sentindo-se esquecidos – inclusive porque nem a escola nem a igreja constam da lista de abrigos publicada no site da Prefeitura –, eles organizaram um protesto, mas denunciaram que foram reprimidos pela polícia com gás de pimenta: todos, inclusive idosos e mulheres grávidas. Planejam outra mobilização, mas agora pedem a presença de jornalistas. “Não precisa nem sair na televisão, só de ter gente filmando a polícia já não vai atacar a gente”, diz Cláudio Eduardo dos Reis, um dos moradores da comunidade.
Francisco de Assis Abreu, 44 anos, morava há 18 na comunidade da Estrada da Cachoeira e disse que nunca tinha visto nada igual. Ele, mulher e filho de 12 anos ficaram só com a roupa do corpo, já que sua casa foi completamente destruída. “Você não sabe o que é pagar uma casa durante sete anos e ela cair em segundos”, desabafa. Francisco ficou em estado de choque e por um tempo não conseguiu ir ao locar onde morava. Da primeira vez que retornou, passou mal. Assim como outras pessoas do abrigo, ele diz que agora vive à base de remédios para hipertensão.
Solidariedade e conflito
Na escola Helena Antipoff, onde as aulas estão suspensas – inclusive porque a maioria dos alunos é de lá mesmo e agora a utiliza como abrigo –, misturam-se cenas de solidariedade e conflito. O clima é familiar, porque aquela é uma comunidade pequena, onde todos se conhecem. Os idosos se distraem jogando dominó, as crianças têm “aulas” de brincadeira para passar o tempo. Mas não existe privacidade, todos têm de obedecer a horários fixos para as refeições e para se recolher – o abrigo fecha às dez da noite e só reabre às seis da manhã. São três banheiros para 125 pessoas, o banho é de balde, as crianças escovam os dentes ao ar livre e cospem no ralo. Os animais de estimação dos moradores também foram recolhidos ali e nem todos são muito amigáveis. Ainda assim, Jéssica Cruz, de 19 anos e grávida de oito meses, consegue sorrir e dizer: “está tudo bem”.
Nem tanto. A mãe de Cláudio dos Reis, que sofreu um derrame, não aguentou a algazarra das crianças e, como outros moradores, resolveu retornar para sua casa, mesmo em área de risco. Mas a dificuldade de convívio não é o único motivo: é grande a preocupação com invasões e furtos. voltar é também uma forma de tentar preservar os bens que lhes restaram, evitar invasões e furtos. Afinal, as casas que resistiram foram abandonadas do jeito que estavam: luzes acesas, roupas no varal, portas abertas e eletrodomésticos dentro.
O primeiro desabamento deixou três mortos. Os próprios vizinhos cavaram a terra e retiraram os corpos.
Padre José Maria, da Igreja Imaculado Coração de Maria, foi quem, por iniciativa própria, abrigou parte da comunidade. Também foi ele que procurou a diretora da escola municipal Helena Antipoff, onde estão os demais desalojados. Segundo os moradores, a Prefeitura só compareceu para retirar a lama da avenida. Sentindo-se esquecidos – inclusive porque nem a escola nem a igreja constam da lista de abrigos publicada no site da Prefeitura –, eles organizaram um protesto, mas denunciaram que foram reprimidos pela polícia com gás de pimenta: todos, inclusive idosos e mulheres grávidas. Planejam outra mobilização, mas agora pedem a presença de jornalistas. “Não precisa nem sair na televisão, só de ter gente filmando a polícia já não vai atacar a gente”, diz Cláudio Eduardo dos Reis, um dos moradores da comunidade.
Francisco de Assis Abreu, 44 anos, morava há 18 na comunidade da Estrada da Cachoeira e disse que nunca tinha visto nada igual. Ele, mulher e filho de 12 anos ficaram só com a roupa do corpo, já que sua casa foi completamente destruída. “Você não sabe o que é pagar uma casa durante sete anos e ela cair em segundos”, desabafa. Francisco ficou em estado de choque e por um tempo não conseguiu ir ao locar onde morava. Da primeira vez que retornou, passou mal. Assim como outras pessoas do abrigo, ele diz que agora vive à base de remédios para hipertensão.
Solidariedade e conflito
Na escola Helena Antipoff, onde as aulas estão suspensas – inclusive porque a maioria dos alunos é de lá mesmo e agora a utiliza como abrigo –, misturam-se cenas de solidariedade e conflito. O clima é familiar, porque aquela é uma comunidade pequena, onde todos se conhecem. Os idosos se distraem jogando dominó, as crianças têm “aulas” de brincadeira para passar o tempo. Mas não existe privacidade, todos têm de obedecer a horários fixos para as refeições e para se recolher – o abrigo fecha às dez da noite e só reabre às seis da manhã. São três banheiros para 125 pessoas, o banho é de balde, as crianças escovam os dentes ao ar livre e cospem no ralo. Os animais de estimação dos moradores também foram recolhidos ali e nem todos são muito amigáveis. Ainda assim, Jéssica Cruz, de 19 anos e grávida de oito meses, consegue sorrir e dizer: “está tudo bem”.
Nem tanto. A mãe de Cláudio dos Reis, que sofreu um derrame, não aguentou a algazarra das crianças e, como outros moradores, resolveu retornar para sua casa, mesmo em área de risco. Mas a dificuldade de convívio não é o único motivo: é grande a preocupação com invasões e furtos. voltar é também uma forma de tentar preservar os bens que lhes restaram, evitar invasões e furtos. Afinal, as casas que resistiram foram abandonadas do jeito que estavam: luzes acesas, roupas no varal, portas abertas e eletrodomésticos dentro.
Galeria:
Francisco de Assis mostra os estragos e caminha sobre os escombros onde três pessoas morreram na Estrada da Cachoeira. A seguir, detalhe da acolhida na igreja do Sagrado Coração, e da escola Helena Antipoff, onde foram improvisadas aulas de brincadeira para entreter as crianças.
Fotos de Paula Paiva
Voltar para a matéria principal
Assinar:
Postagens (Atom)




